Quando se entregou pela primeira vez a outrem após Tonni, foi estranho. Estranho e maravilhoso. Deixou que aquele homem atraente viril a beijasse, era errado, ela sabia, mas ainda assim quis. Mas... nada. Pensou então que talvez fosse pouco. Talvez necessitasse de muito mais que beijos para expulsá-lo de si. Então entregou-se. Sim. Entregou-se num Gol não sei que ano, em frente ao cemitério de uma cidadezinha esquecida por Deus e amaldiçoada por natureza. Barreiras. Pôs barreiras entre ambos.
Entregou-se crendo em seu fim, em sua morte. Foi estranho, louco, quente, assustador, e foi espantosamente bom. Orgasmos? Não, não... Seu prazer vinha da crença que ela nutria de que o matava, nada mais.
Apaixonou-se. Apaixonou-se? Não sei dizer. Talvez o fato de lhe ser proibido o romance, que ela iniciara, tivesse feito com que se expandisse a idéia de estar apaixonada. Depositou então neste novo ser todo o amor que nutria por Tonni. Creu assim tê-lo esquecido. Fora um devaneio seu. Chegou mesmo a sofrer pelo outro. Então sentiu uma ilusória felicidade, sentiu que estava feito e consumado. Mentira, tudo mentira.
O que Clarisse não sabia, era que Tonni adormecia em seu peito, ele fora apenas golpeado, estava em coma. Mais tarde ele voltaria mais forte, mais vívido que nunca, para matá-la ainda uma última vez.
Viveu dois meses de uma feliz tristeza. Sentia-se bem cada vez que sofria por José. Uma infeliz coincidência quis que eles sentissem uma atração mutua e avassaladora, e era já um pouco tarde para recuar, embora ela quisesse. Clarisse sabia que era errado o que estava fazendo, ela sentia pela amiga, jurava que jamais voltaria a encontrá-lo, mas quando isto acontecia ela não tinha forças para fugir.
José Soares, era um homem um tanto rude e apesar de tímido tinha um sorriso cômico, que a fazia rir desordenadamente. Ela gostava disso. Suas mãos másculas, seu jeito viril, suas coxas bem torneadas, seus olhos embebidos em mel... Tudo isto dava a Clarisse a impressão de que aquele homem a possuia, ainda que ela não o quisesse. E não o queria por dois motivos: ele era ex-marido de uma amiga a quem Clarisse amava como a uma irmã, e no mais era um tremendo cafageste.
Ela sabia que nutrir esse romance acabaria por desfazer sua amizade com Jô, e já sentia-se culpada por tudo que fizera até ali. Não permitiria mais esta situção. Se a amiga não o amasse ela tomaria a iniciativa de falar com ela, perguntar o que achava a respeito, embora a idéia lhe parecesse estranha, talvez até absurda. No entanto, ela sabia que apesar de separados há dois anos, ela o amava. Isso causava-lhe terror. Como ela podia estar fazendo uma coisa dessas com sua amiga? "Deus do céu! A que ponto cheguei... Isto não pode mais ficar assim. Tem de acabar. Falarei com ele hoje mesmo.". Mas os pensamentos de revolta contra suas atitudes desapareciam no primeiro beijo que José lhe dava. Ela não conseguia afastá-lo de si por mais que tentasse. E quando estava em seus braços, Clarisse esquecia-se. Esquecia-se de sua amiga, esquecia-se de si, e até mesmo de Tonni. Verdade de que não era sempre que ela esquecia, afinal fora quase um ano ao lado dele, mas por alguns minutos ela o esquecia, nesses instantes graciosos Tonni parecia-lhe apenas uma recordação longínqua.
Enaiar Soares, sua melhor amiga, tentou diversas vezes adivertí-la a respeito do que ela fazia, ela concordava, mas logo esquecia. Esquecia mesmo que José era o tio de Enaiar, e que esta sentia as dores de Jô, a quem também amava com o respeito de uma sobrinha e o carinho de uma amiga.
Quando Clarisse estava com José, parecia não haver passado para ambos. Eram apenas eles e ninguém mais. Mas quando Clarisse recordava-se tudo, ela o repudiava. Sentia nojo dele, nojo de si mesma. "Como sou suja... Eu não presto. Não presto!", pensava. - Por que você me foge tanto, já não lhe disse o quanto lhe quero e o quanto me faz feliz?, perguntou José num ímpeto de revolta à repulsa do beijo que tentara dar em Clarisse.
- Você sabe que não podemos continuar assim, respondeu Clarisse chorosa.
- Mas já lhe disse que não precisamos continuar assim, aceite ser minha namorada e gritarei aos quatro ventos que sou teu e você é minha, tentou José com uma voz doce abrandar a situação tensa.
- Pare de ser ridículo José! Sabes bem que não falo disto, e que jamais aceitaria ser tua por que também sei que jamais serás inteiramente meu. Não vou sacrificar a felicidade de minha amiga pela minha própria jamais, além do mais conheço que não há felicidade ao lado teu. Já estou farta de lhe dizer o que penso a respeito e de pedir que me deixe em paz. Por quê não me ouve?
- Mas que diabos você está falando mulher? Outra vez esta conversa? Quantas vezes terei de jurar-lhe que não a amo mais? Quantas vezes terei de dizer que não temos nada haver um com o outro? Que eu a deixei, que ela me fez sofrer, me traiu! Ela está casada agora! Por quê não entende isto de uma vez, Clarisse? É por você que meu coração bate!
- Casada e esperando um filho que pode ser seu! O que me diz disso, sr. Soares?
- Não é meu. Sei que não. Tentamos sete anos. Acha que logo quando estamos separados eu conseguiria engravidá-la? Está na cara que não é meu este filho que ela espera. Só você não quer ver isso. Está procurando desculpas para não aceitar. Por que não diz de uma vez que não me quer e pronto?
- Não o quero. Já lhe disse. Agora vá, disse Clarisse num tom firme.
- Por favor, Clarisse, disse José em tom de súplica. Não faça isso. Não me peça pra ir. Eu não posso mais ser feliz longe de ti. Amanhã terei de viajar novamente à trabalho. Quer que eu vá com este sentimento de que não tenho motivos para retornar? José quis contornar a situação fazendo-se de vítima. Clarisse não cedeu e atirou sobre ele seu olhar fuminante de chocolate meio amargo, com aquele leve sorriso irônico que costumava desabrochar de seus lábios rubros e voluptuosos. - Retorne para quem realmente ama, e para seu filho.
- Você insiste nisso. Como pode ser tão cabeça dura? Eu realmente não aguento esta situação. Não quer ser minha? Paciência, não lhe vou mais adular. Espero que tenha mudado de idéia quando eu voltar. Posso ligar-te?
- Não vou mudar. Não ligue ou vai perder o seu tempo. Não o atenderei. Assim passaram-se dois meses. Ele não ligou. Clarisse não imaginava que ele fosse obedecê-la deste modo, sentia-se até indignada com isto. Mas achava que assim era melhor. De quando em quando, José ligava para Enaiar e procurava saber notícias suas, esta informava que sua amiga estava ótima, mas que não queria saber nem mesmo de ouvir falar em seu nome. José finalmente conformou-se e desistiu.
Eu já disse que isso parece-se com coisas que conheço não disse Liesel?
ResponderExcluirVocê ainda é o meu mistério... Vou resolver...
Decidi não matar o blog...
Será uma declaração constante, e você fez parte disso...
Gostei muito. Delicioso...
ResponderExcluir:)
Nostalgia completa.
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